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Arrancar a própria pele
Solon Saldanha

A mesma falsa ideia de que um jornalista deva ser SEMPRE neutro – na verdade nunca se é totalmente –, que foi plantada por interesse, pressupõe que a pessoa que esteja exercendo essa função, o profissional, jamais deva sentir qualquer coisa relacionada ao assunto que está cobrindo. Não ser apenas neutro, como também gelado, seria a postura ideal mais do que recomendada, exigida. Você vai até uma escola, onde quatro crianças acabam de ser mortas com uma machadinha, por um fanático direitista, mas tem que parecer uma estátua falante, para os telespectadores. Como se a emissora tivesse enviado um robot para fazer a cobertura. O cheiro de mais de 200 cadáveres cozidos no interior da Boate Kiss não pode entrar pelas suas narinas. O menino de três anos, cujo corpo jaz na praia, afogado depois de uma tentativa frustrada de uma família de refugiados chegar à Europa, precisa ser visto como se fosse um grande boneco de plástico sobre a areia.

Dias atrás, no programa Espaço Plural – Debates e Entrevistas, do qual sou o apresentador, estava ouvindo três pessoas sobre a questão do autismo, com seus problemas e potencialidades. Uma delas era a advogada Taiani Trindade, que tem pós-graduação em Direito da Saúde, sendo especialista em Direito dos Autistas. Perguntei ao final se ela poderia nos narrar algum caso emblemático no qual tenha atuado, claro que respeitando a questão ética e não revelando nomes dos envolvidos. A história que ela contou me deixou sensibilizado, numa espécie de mistura entre incredulidade e indignação. Um menino de dez anos, negro e com espectro autista, estava sofrendo bullying na escola. Essa é uma prática repetitiva, sistemática, de uma série de atos que representam violência, seja ela física ou psicológica. Desesperado com a humilhação, que era de cunho racista – difícil ser preto, pobre e ter alguma deficiência ou transtorno –, primeiro ele tentou se jogar do terceiro andar do prédio, no que felizmente foi impedido. E depois, pasmem, foi pego portando uma gilete, com a qual pretendia remover sua pele para se tornar branco como os colegas.

A advogada confessou ter chorado junto com a mãe que a procurou para pedir ajuda. Como seria possível exigir de mim ou de qualquer outra pessoa neutralidade quanto a fatos como esse? Nenhuma criança nasce racista. Algo muito errado estava acontecendo nas casas destes colegas do menino, com as famílias deles todos. Aliás, não se vê manifestações voluntárias nos pequenos, com relação a preconceito algum. A diversidade é natural, perante seus olhos e comportamento. Brincam com as outras, independente de cor da pele, se usam ou não óculos, se são gordas ou magras. Deficiências físicas em geral podem até gerar curiosidade, mas não vão além disso.

Meu pequeno e amado carequinha, que por algum tempo teve que usar uma válvula sob a pele, na cabeça, se acostumou e apenas ficava esperando parado quando outras crianças dele se aproximavam e tocavam no local. Ele deixava isso ser feito, sem reagir. E brincavam depois, sem nenhum problema. Alguns dos outros pais, no entanto, afastavam suas crianças, como se o câncer que ele tinha fosse contagioso. Como se a sua aparência circunstancial fosse vergonhosa.

Mães, pais e outros cuidadores responsáveis precisam entender que é sua obrigação fazer com que as crianças sejam melhores do que eles próprios. Precisam ter a grandeza de buscar passar bons exemplos e as suas qualidades para os pequenos, bloqueando seus defeitos. Nossos filhos não precisam ser cópias nossas: devem, isso sim, ser muito melhor do que fomos e somos. Isso se faz, essa evolução necessária, com um esforço para educar evitando generalizações e com um mínimo de cuidado no sentido de respeito às diferenças. Precisamos entender que ninguém é igual a ninguém, que de perto nenhum de nós é totalmente normal. E temos que assumir isso como um compromisso perante à vida. Ao menos em respeito àqueles que amamos e que continuarão aqui, depois de nossa partida, como nossos sucessores.


14/07/2023

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  Solon Saldanha

Solon José da Cunha Saldanha, graduado em jornalismo, tem especialização em Comunicação e Política, além de mestrado em Letras. Com experiencia na mídia impressa, rádio e assessoria de imprensa, atua como revisor estilístico de textos e professor universitário. Escreve contos e crônicas.

solonsaldanha@gmail.com


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