O espaço da leitura na formação do leitor

Jacira Fagundes

Literatura é ato criativo que representa o mundo, o homem e a vida através da palavra. Tem a capacidade de associar os sonhos à vida prática, o imaginário à realidade e os ideais a sua possível ou impossível realização. Toda literatura, em qualquer gênero, se apoia neste conceito de realidade inventada e de experiências vividas na imaginação. Para que a magia do encantamento no ato de ler se realize, o texto literário deve apresentar qualidade textual e qualidade estética, e isto se revela no modo como o livro se apresenta ao leitor e como o seduz.

Não é simples definir o que seja qualidade em literatura. Porém é possível reconhecer num texto o tanto de sensibilidade, originalidade, bom gosto e persuasão que se apresenta ao leitor e o faz refém da história que vem sendo narrada. Se tais aspectos são relevantes no texto que se apresenta, o objetivo de seduzir e encantar a quem lê, é facilmente alcançado devido a sua qualidade literária.

A literatura infantil e juvenil não se afasta das características essenciais à literatura em geral, no que diz respeito à qualidade e adequação do texto ao leitor. Dizer que a literatura infantil e juvenil é uma literatura menor, como ainda tentam alguns críticos posicioná-la, é ato absurdamente discriminatório. O ser criança não difere do ser adulto em capacidade de absorver o que é bom e importante.

É através da fusão do imaginário com o real que a literatura consegue despertar o senso crítico, e nunca se precisou tanto do senso crítico como no momento atual. Nem somente para o adulto valem a reflexão e a crítica. Na mesma exigência, o livro infantil, ao despertar a curiosidade tão própria da criança, aguça a imaginação na busca de experimentações e soluções de questões do seu cotidiano, nas brincadeiras comuns à infância. O livro não é essencialmente um brinquedo, porém, cada vez mais se apresenta atraente ao olhar, em tamanhos diversos, bonitos e coloridos. E passa uma história que leva a criança a vivenciar o pensamento mágico próprio das brincadeiras e do faz de conta. Ao desviar-se da censura e das opiniões comuns ao adulto e ao utilizar linguagem apropriada numa voz narrativa que fala e é entendida pela criança, a capacidade de crítica e de aceitação de questões como preconceito, perdas, diferenças, abandono e inclusive morte, faz-se com naturalidade e se amplia o conhecimento de mundo, sem o ranço do que deve ou não ser evitado ou excluído das histórias infantis.

Mas uma realidade se impõe quanto ao acesso da criança e do jovem ao livro, em especial. Falta à criança e, em menor escala, ao adolescente, disponibilidade financeira para aquisição do livro. No caso da criança pequena, falta também a capacidade de escolha, ainda insuficiente num leitor que vem se formando sob orientação dos adultos – pais e professores. A família e a escola constituem os setores que têm a incumbência e a responsabilidade de aproximar a literatura dos pequenos e jovens leitores.

Vejamos as condições gerais das famílias, embora pouco se possa precisar de dados referentes ao assunto leitura na família. O que é possível detectar é que o brasileiro, como povo, não absorveu a cultura da leitura como ela se perpetua em países desenvolvidos. Salvo em alguns Estados da Federação, como o eixo Rio- São Paulo, e talvez o Rio Grande do Sul de alguns anos atrás, o baixo índice de famílias leitoras é o que mais se evidencia no território nacional. Os dados que permitiriam uma afirmação ou negação do exposto, acredita-se não estarem disponíveis em pesquisas, com maior fundamento ou não. Porém é pela vivência e pela observação da infância e da juventude na vida cotidiana que se pode chegar a tal conclusão. Decididamente, com raras exceções, pais não leem ou leem pouco, a ponto de constituírem mau exemplo para crianças e jovens. Não há tempo e espaço para leitura realizada pelo adulto; a televisão, o celular e o tablet ocupam o espaço vazio de comunicação; as crianças e os jovens assumem várias atividades fora do período escolar como academias, aulas extras de dança, música, esportes para os mais abonados ou o cuidado com irmãos menores ou ajuda nas tarefas de casa para os mais desvalidos. A vida familiar é cada vez mais corrida.

A convivência com o livro e a formação do hábito do ler passa, portanto, a ficar restrito à escola. A leitura deixa de ser uma questão de cultura e acesso à informação e formação, para se transformar numa questão de educação legislada e regulamentada pelos órgãos públicos e privados e a ser executada pela escola, sob a orientação dos professores do Ensino Fundamental e Médio.

Esta é, portanto, a triste realidade. Não se discute a intensidade de aprimoramento da leitura na escola, uma vez que cabe sim, à instituição escolar, a formação do leitor. O que causa desconforto é o tratamento dado à leitura como ação exclusiva do órgão educacional. O convívio com o livro no meio social que a criança e o jovem frequentam é mínimo e restrito a uns poucos.

A sala de aula irá cotidianamente proporcionar a leitura, em momentos distintos da atividade docente, com certeza. Porém, insuficiente, porque o hábito de ler irá exigir muito mais. Cabe à família, junto à sociedade civil organizada, cumprir seu papel, independente de orientações governamentais. E para além do que cabe à escola, oferecer.

 

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