A voragem de Junichiro Tanizaki

por Aletheia Machado

Costumo começar uma leitura sem muita informação prévia, nem às orelhas recorro. Se avanço, não paro para me informar, vou aproveitando e sorvendo cada palavra e ideia. Quero saber como me sinto em relação àquela porção de literatura, qual o meu entendimento e por que foi tão gratificante eleger aquele livro como meu companheiro naquele momento. Com Voragem de Junichiro Tanizaki não foi diferente. Devorei o livro vorazmente, dentro da minha limitação de tempo, claro. Sempre com essa ideia de voracidade, de extremo, de obsessão me acompanhando, a imagem que formei da leitura foi a de mim mesma em alto mar, num cenário em que ondas sucessivas me acertavam em cheio; e eu, sem tempo de respirar ou pensar numa estratégia para emergir, acima de todas aquelas vagas de movimento, não conseguia ter uma compreensão maior do todo. Cada onda, cada versão apresentada dos fatos, tinha que ser encarada isoladamente: assim enfrentei meu tsunami, chamado Voragem.

Isso porque Sonoko, ao narrar sua história, tendo como interlocutor um Sensei, ou mestre sábio e orientador, mune-se de tamanha dramaticidade, que fez com que eu não conseguisse parar para refletir e entender como as coisas chegaram aonde chegaram. A cada página, Tanizaki apresenta versões e contraversões tão desconcertantes e complementares e opostas e paradoxais que a verdade é o que menos importa na narrativa (emergir é até inócuo): o que importa mesmo é a forma de contar a história e de nos prender e de nos envolver até o fim. A curiosidade quanto ao desfecho da trama sobrepõe-se à autenticidade das intenções dos personagens, Sonoko, Mitsuko, Watanabi e Eijiro. É irrelevante confirmar quem amava ou foi amado por quem, quem enganou ou foi ludibriado por quem, quem queria ter a primazia e exercer o poder sobre quem deve-se atentar para o enredo e a estrutura da narrativa e, sobretudo, para a essência do belo que está na origem de toda a decadência posterior. Ninguém parte para o mar pensando que estará à deriva, sufocando-se, sem escapatória. Nenhum relacionamento nasce da obsessão, do desgaste, da insatisfação, do desamparo, do vício, do torpor, da destruição. Os inícios são memoráveis, assim como a beleza de Mitsuko que inspira Sonoko a pintar-lhe como a deusa Kannon, dragando essa mesma Sonoko para o fundo de uma compulsão sexual e sentimental completamente efervescente e incontrolável.

Como a leitura fluiu, só fui saber mais do autor e do contexto do livro posteriormente. E como sempre, os significados e arquétipos se apresentaram. Voragem não é o mesmo que voracidade (apesar de que Mitsuko me pareceu bastante voraz, desejosa dos desejos e da veneração de todos, ansiosa por seduzir e exercer poder), mas é exatamente o sinônimo de perigo e risco, abismo e inferno - esses dois últimos, numa acepção religiosa do termo. Talvez por isso a tradução brasileira escolheu intitular a obra como Voragem, palavra cujo sentido é, em muitos aspectos, condizente com a ideia geral da narrativa. Em outros idiomas, como no francês, o livro recebeu o nome de “Suástica”. Na verdade, este último termo aproxima-se mais do título original e do intuito do autor de descrever uma relação a quatro, retorcida nos extremos. Lembrem-se de que o romance é de 1928; escrito muito antes, portanto, da apropriação nazista do símbolo utilizado por Tanizaki, em sua primeira versão. O mais incrível para mim e para a imagem que formei do livro, no entanto, é o outro significado de voragem: “tempestade em alto mar e/ou perigos por ele oferecido, risco em alto mar, solidão em alto mar, dificuldades, adversidades”. Tal era minha sensação ao ler o livro! Absolutamente, incrível! A escolha do termo, mais uma vez, pode dever-se ao fato de que Sonoko é uma sobrevivente que narra aos borbotões seu drama, sua história de amor.

Fiquei pensando no que o Sensei lhe teria dito ao final de tudo aquilo, qual provérbio oriental utilizaria para apaziguar seu sofrimento e solidão. Talvez tivesse recorrido ao próprio mito da Kannon que, originalmente uma figura masculina, é venerada, no Japão, como uma deusa feminina da misericórdia e da compaixão, da pureza dos sentimentos. Talvez ele a tivesse aconselhado a ater-se ao início de tudo, sem julgar-lhe os próprios atos, naturalmente, apenas recordando o embrião do relato, contido na pele branca e na beleza de Mitsuko, sua Kannon. "Compadeça-se de você mesma", ele teria dito, “'os nossos desejos são como crianças pequenas: quanto mais lhes cedemos, mais exigentes se tornam'”, por isso 'volta teu rosto sempre na direção do sol; e, então, as sombras ficarão para trás', porque 'jamais se deve desesperar em meio às sombrias aflições de sua vida, pois das nuvens mais negras cairá água límpida e fecunda'.”

Essa caracterização da Kannon também é intrigante e pode relacionar-se com a forma como Tanizaki constrói seus personagens. Mulheres fortes e voluntariosas, suaves e firmes, detalhistas, sensíveis e representantes do Japão tradicional, em seus quimonos e estamparias; homens abjetos, impotentes, submissos, masoquistas e confusos. Esses são Sonoko, Mitsuko, Eijiro e Watanabi. Ainda sobre o contexto do livro, descobri que Tanizaki foi fortemente influenciado, no início de sua carreira, pela literatura ocidental até passar por uma experiência trágica de um terremoto devastador, em 1923. Nessa ocasião, mudou-se para região de Osaka e Kyoto que seriam cenários de suas histórias posteriores. O autor, por sua vez, passa a resgatar e valorizar, em sua literatura, tradições japonesas, inclusive da escrita. Na versão original de Voragem, por exemplo, Tanizaki teria empregado um dialeto aristocrático da região de Osaka para ambientar melhor a história; e da fábula de Sonoko ecoaria a dramaturgia clássica japonesa, representada por Chikamatsu.

Naturalmente, isso tudo pode-se perder numa tradução para o português, mas minha conclusão ao alcançar terra firme, exausta e exaurida, é a de que vale a pena correr todos os riscos e os perigos dessa voragem, ainda que em português.

 

 

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