Contos

E se não houver apelido

Rejane Benvenuto


Ainda um toquinho de gente, notou que o mundo inteiro tinha mais de um jeito de ser chamado: automóvel era bibi, cachorro era au-au, comida era papá, madrinha era dinda. E ela? Por que era apenas Maria das Dores?

Homenagem à Dona Dorinha, descobriu um dia. Avó materna que a pequena não chegou a conhecer e de quem recebeu o nome de herança, mas não o apelido. Ela, a neta, era simplesmente Maria das Dores. Para todos. E isso desde o tempo da barriga da mãe. A menina ia crescendo, crescendo, e nada. Fizesse travessura, tirasse nota boa. “Maria das Doooores”, diziam.

Neném, Dazinha, Dodô… até Das Dores ela comemoraria. Não disfarçava a ponta de inveja do jeito com que tratavam a vizinha Leca. Valéria, na verdade, segundo a lista de chamada da escola. Hora do almoço, Leca! Vem tomar banho, Leca! Havia naquilo uma doçura mais doce do que o melhor pudim de leite dos almoços de domingo.

Ser Maria das Dores em casa e entre estranhos a deixava capenga.

Cocada mordida.

Feijão sem arroz.

Chiclete sem bola.

Quando a menina sem apelido se fechou de vez em silêncio, a mãe logo notou. Maria das Dores, dizia ela com ternura, vem cá.

E a menina chorava, chorava.

A pequena trancou-se tanto nela mesma, que, na falta de algo para sentir, passou a roubar para si outros sentires. Outras dores.

O cachorro preso na corrente.

O sol borrado por nuvens.

O frango que o goleiro engoliu na Copa do Mundo.

E a menina chorava, chorava.

-Maria das Dores, conta pra mãe o que você tem, filha?

-Dói - respondia, distraída a garimpar mais tristezas.

A goiaba que se esborrachou do pé.

A meia que se perdeu do par.

A barata que a galinha ciscou no terreno.

E a menina chorava, chorava.

A mãe até comentou com o pai, que mal ouviu, porque parecia ainda mais ocupado do que ela. Na volta da viagem, quem sabe a gente vê isso. Besteira de criança, dizia ele. E Maria das Dores? Chorava, chorava.

O coração da mãe foi se espremendo tanto, mas tanto, que agora vazava também. E a água brotando da mãe fazia as dores de Maria doerem mais.

Unha encravada.

Carne presa entre os dentes.

Borrachudo grudado na canela.

Daí a mãe, que não tinha tempo e já não sabia o que fazer, decidiu pegar com carinho a mão de Das Dores e colocar no peito materno.

TUM-TUM-TUM

O ritmo forte da vida matou de susto o cinza da menina. As cores voltaram.

TUM-TUM-TUM

O castanho claro dos olhos da mãe.

O vermelho sangue da cerâmica do piso.

O azul pastel das paredes da sala.

TUM-TUM-TUM

O calor laranja do sol driblou a fresta da janela, iluminando o conforto mais tutti-frutti que um abraço poderia dar.

“Vem cá, minha pequena, vem. Vem cá, meu Tum-tum”.

***

Jornalista de formação, Rejane Benvenuto atua nas áreas de propaganda e marketing, faz tradução de filmes e séries, livros corporativos e ghostwriting para empresários e políticos. O projeto online de Marcelo Spalding foi o seu primeiro contato com uma oficina de criação literária. Tem 55 anos e vive em Florianópolis.

 

 

 

Comentários:

Envie seu comentário

Nome :
E-mail :
Cidade/UF:
Mensagem:
Verificação:
Repita os caracteres "415801" no campo.