Artes Plásticas
Um templo para o soturno
Tenini
A vida pessoal do controverso artista brasileiro, já falecido, IBERÊ CAMARGO, sedimentou uma obra que lhe deu sucessos e reconhecimentos nacional e internacional.
Nascido no interior do Rio Grande do Sul, era filho de modesto ferroviário mostrou pendores para a Arte desde garotinho. Apostou no “soturno” a vida inteira e foi no aprofundamento da alma humana soturna que ele galgou a fama e também a tragédia.
Não convivi com Iberê para dizer como ele era interiormente. Certa vez, encontrei-o no Atelier Livre, rodeado de alunas, mas ele estava apenas visitando a casa. Eu subia a escada e ele descia, sorriu-me e acompanhou-me com os olhos como se estivesse reconhecendo alguém e seguiu para a saÃda do prédio.
Iberê, entre suas andanças pelo mundo despertava a admiração de artistas famosos pela sua insistência em pintar o trágico, o “soturno”. Seria ele uma pessoa assim? A verdade é que todos nós temos dias de tristeza, solidão, angústia e nos apresentamos soturnos. Existe beleza no trágico? Claro, há beleza em todas as coisas mesmo no feio e no trágico porque trata da alma humana em aflição.
Olhei as telas do Iberê. Representa um olhar doentio, depressivo para as coisas que nos faz pensar.
Houve um momento de tragédia na sua vida quando matou um homem em plena Copacabana, há anos atrás. Houve interferências polÃticas importantes e de militares que o livraram do julgamento e da prisão. Nunca se soube o que ocorreu com Iberê para fazer aquilo. Foi o destino? Foi sua compulsão para a tragédia e o negro da vida?
Dizem que ele pintava com paixão, usando tubos de tinta, espátulas, pincéis volumosos e as mãos quando realizava um trabalho.
Há tempos exercitei a experiência de pintar dois quadros apenas com as mãos. Num deles as cores saÃram escuras como um dia enfarruscado mas as figuras que pintei saÃram com ar alegre e fantasmagórico ao mesmo tempo. Dei-lhe o nome de Tango. Gostei da experiência.
No outro quadro, decidi colocar ali a minha alma e joguei tintas com as mãos e, em cada camada de cores variadas ia colocando datas importantes para mim, nomes dos meus amores, das minhas paixões. Depois embaralhava tudo e acabei por desenhar as figuras com os dedos e com as unhas delineei uma personagem com pássaros.
Um poeta se apaixonou pelo resultado do trabalho e eu sei que o quadro vai levar no meio de suas tintas todas minhas vivências e expectativas de vida. O nome deste quadro é Sétimo Céu. Penso que é mais ou menos assim que Iberê pintava e jamais mudou. Mas eu sou uma humilde pintora de cores, a alegria está implÃcita na minha alma, na obra que realizo. Prefiro ser como a mais simples das mortais e esperar da vida o que ela oferece de melhor.
Ali, na orla do GuaÃba, está o amplo Templo branco do Iberê, em espiral como sua ascensão na Arte.
É um ousado desafio à natureza que o cerca porque ali do outro lado, está o mais belo da vida, em cores e alegria.
Bonito presenciarmos o Soturno versus Beleza da natureza em céu, pôr do sol e lago, compreendido pelo arquiteto português �lvaro Siza que concebeu o projeto e realização da majestosa construção.
Nos dois está um pouco de todos nós!
10/06/2008
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